-Acho que levarei este! – a estridente voz da idosa dama o tirou de suas análises, voltando ao seu trabalho, desviou o olhar da vitrine, mas antes de encarar aquela face enrugada ou a pequena jóia que escolhera, o vendedor deu-se o luxo de passar o olhar pela moçoila que acompanhava timidamente a velha. Linda jovem dama. Começou a percorrer os olhos pelos cabelos castanhos de uma tonalidade clara e suave, levemente ondulados, partido ao meio, ladeado por duas tranças que levavam os fios, harmoniosamente, para trás. Embora não pudesse ver, mas imaginava que o longo cabelo descia como uma sinuosa cascata castanha por suas delicadas costas. Seus olhos começaram a percorrer as formas sutis que as sobrancelhas da jovem formavam. Finas, leves e arqueadas. Descendo pelo nariz fino e perfilado, chegou até sua boca, uma fina linha dobrada nos cantos emoldurados pela rosada e húmida carne a quem chama de lábios, subia pela maçã, rosadas como um fruto campestre convidando para ser degustado em uma tarde quente de verão, sua pele macia refletia uma dama jovem, começando sua vida na sociedade em seus plenos quinze anos, quando seus olhos fixaram-se nos dela, ele finalmente pôde lê-la. Viu dentro de sua alma inocente, todas as suas dúvidas, medos, angústias e... desejos. Leu e deleitou-se com o que lia... sua obsessão... sua infância... O rosto do rapaz havia se voltado para o da madame, mas seus olhos demoraram um tempo praticamente imperceptível para dar-lhe atenção, mas o suficiente para...
-Perfeita... – deixar escapar por entre os lábios em um sussurro penetrante. – Não poderia ter feito melhor escolha. - falou suavemente para dama.
-Claro que não! – respondeu-lhe com sua estúpida arrogância – O que achou Clarice? – notava naquela tom de voz, um desprezo muito bem escondido, a opinião da jovem pouco importava no momento.
Foi como uma melodia para seus ouvidos, era suave, era doce e preenchia seu peito de fervor, quando os lábios rosados formaram aquelas palavras, seu significado pouco importava, o som... o som tímido e sereno preencheu seus ouvidos e a frase fora esculpida no ar como uma obra de arte é esculpida em mármore Carrara.
-É lindo mamãe, maravilhoso.
Mas seus olhos não brilharam como era de costume nas pessoas, principalmente as jovens noivas e os vigaristas, quando encaravam uma preciosidade de seu agrado. Seus lindos orbes castanhos refletiram uma memória... uma memória longínqua mas que recentemente havia retornado para assombrá-la, mas não conseguiu distinguir, o que o deixou mais intrigado, se era uma memória boa ou ruim... o vendedor não havia cogitado a possibilidade de ser as duas em tempos diferentes, o antagonismo complementar atemporal da vida das pessoas ainda era um grande mistério que estava sendo desvendado por ele.
Podre homem, preso em seus dons que o atormentavam como uma maldição. Mais miseráveis ainda, aqueles que o cercam. Cercar uma vil criatura como tal, a fim de arrancar algum proveito tem seu preço e há de cobrar um preço demasiadamente caro para a maioria dos mortais, algo pelo qual se preza... pelo qual se vive; o preço pago não é a vida, mas sim o sentido de viver e sentir. Para os imortais, o tormento de caírem no esquecimento supera qualquer tortura física. Para essas almas excêntricas não há limites para sua ambição.
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Espero que tenham gostado, o mesmo trato, continuo a postar com comentários...